sábado, 5 de novembro de 2011

Sobre a microssociologia ou sociologia infinitesimal de Gabriel Tarde



Danilo José Viana da Silva

            Tentar expor a microssociologia ou sociologia infinitesimal de Gabriel Tarde através dela mesma pode não ser lá muito esclarecedor. Neste caso, pensamos ser bem melhor expor de maneira bem exemplificativa esta nova maneira de  investigar o social e, até mesmo, utilizando uma linguagem não científica algumas vezes.
            Então, vamos lá:
            Na feira realizada semanalmente no centro da cidade de Dantara, um dos feirantes disse à um cliente que lhe perguntou o preço dos tomates: “ Ah, o tomate não é barato! É baratão.
            Aí o cliente falou: baratão? Nunca ouvi esta palavra antes, mas vou adotar. (disse rindo)
            Aí outro feirante ouviu a conversa e passou também a adotar a palavra baratão e começou a gritar no meio da feira: “Atenção! Atenção! Tomates baratão! Tomates baratão! Podem chegar!
            E outro feirante ouviu a palavra, mas achou feia e gramaticalmente estupida; mas, depois de duas horas, começou a gritar: Tomates baratão! Aproxime-se, dei-me atenção!
            E daí uma onda de imitação propagou bastante essa palavra; daí em diante, quase todos já estavam bem familiarizados com a palavra baratão, tomates baratão! Aliás, ela passou a ser empregada não apenas em relação aos tomates, mas à todo tipo de produto que estava à venda na feira. Até mesmo os clientes saiam da feira falando ela, mesmo que sem querer.  Ou seja, eles falavam sem ter a nítida e consciente ideia de que estavam imitando, ou melhor, propagando via imitação uma palavra nova que foi disparada na feira.
            Mas, outro feirante achou essa palavra (baratão) já muito desgastada, e acabou inventando outra palavra para atrair os clientes na movimentada feira. Ele se recusou a propagar a palavra baratão novamente e criou outra palavra: barataria, e começou a gritar: aconcheguem-se! Venham cá ver estas laranjas, estão uma barataria só!
            Daí os outros feirantes começaram a dar atenção à esta novidade que acabou de ser disparada na feira: barataria. Em cerca de dois meses, boa parte dos feirantes já estava propagando a palavra barataria, a qual, pouco a pouco, foi substituindo a antiga palavra (baratão).
            Muitos dos feirantes nem mesmo se davam conta do que faziam, eles imitavam, também inventavam sem nem mesmo ter disso consciência, outas vezes eles copiavam gírias de compradores estrangeiros, que nem português falavam lá muito bem.



            Tiago seixas Themudo vai exemplificar isso de maneira bastante interessante, ele busca na literatura um belo exemplo de como uma novidade é propagada via contágio imitativo, sem que os próprios agentes sociais se deem conta disso, é um exemplo dado por Melville que ele cita em nota de rodapé:

“(turco): - Humildemente, senhor – disse ele – ontem fiquei pensando em Bartleby, e pensei que, preferisse ele tomar todos os dias...
(Advogado): - Então você também adotou a palavra – disse eu ligeiramente nervoso.
(turco): - Humildemente senhor, que palavra?... – Que palavra, senhor?
(Advogado): - A palavra, essa, turco: disse eu – É essa.
(turco): - Ho! Preferir? Ho, sim, palavra esquisita. Eu nunca a emprego. Mas, como ia dizendo, se o senhor prefere...
(Advogado): - Turco – atalhei – quer fazer o favor de retirar-se?
(turco): - Ho, pois não, se o senhor prefere que eu me retire.
Enquanto ele abria a porta para retirar-se, Nippers viu-me de relance sentado à escrivaninha e perguntou-me se eu preferia que um certo papel fosse copiado em papel azul ou branco. [...] Era claro que ela (a palavra preferir) caíra da língua involuntariamente, e pensei comigo mesmo, que certamente eu devia livrar-me de um demente, que até certo ponto já transtornara a língua, quando já não as cabeças, a minha e a de meus escreventes.” 1


Este é um bom exemplo, assim como o da feira, para entendermos a lógica da formação, dos movimentos, muitas vezes, imperceptíveis na sociedade. Esta é constantemente movimentada pelas ações dos agentes sociais, ações que, muitas vezes, nem mesmo chegamos a perceber, mas são bastante importantes, pois são eles que gestam as futuras transformações.  Tarde irá dar toda uma importância especial à estes pequenos acontecimentos, eis um ponto que o diferencia de todo o legado da sociologia positivista que tachava estes pequenos acontecimentos de superfluidades, de meras flutuações que não devem ser levadas em conta, pois tudo aconteceria conforme as prévias grandes representações do social, das quais os agentes seriam  os reflexos.
Tarde, assim, da toda uma importância as invenções anônimas, vistas como insignificantes e supérfluas pela sociologia positivista, a qual, partindo de grandes conjecturas, ignora toda uma riqueza que movimenta constantemente o social, e que não se deixa capturar, muitas vezes, pelos grandes sistemas representativos do social. Este jamais existiria sem as ações dos agentes, dos múltiplos agentes sociais. Tarde dará toda uma importância à tudo aquilo que os grandes sistemas de explicação do social ignora. E ele escreve:
Sozinhos, alguns espíritos rebeldes, estranhos, com o seu toque de finados, no tumulto do oceano social em que estão mergulhados, ruminam aqui e acolá problemas bizarros, absolutamente desprovidos de actualidade. E são estes os inventores de amanhã. 2

              

É como se uma pequena invenção, vista como insignificante em determinado momento, fica-se durante um bom tempo em estado de latência, assim como um vírus que ainda não se manifestou. O social, em Tarde, é completamente reanimado por tais atos de invenção.
E no caso da imitação, vale lembrar que Tarde não irá conceber um sujeito soberano absoluto de suas próprias decisões, soberano de suas próprias escolhas, se suas próprias imitações e criações. Antes, as subjetividades são constantemente perpassadas por fluxos, são constantemente afetadas reciprocamente umas pelas outras, influenciam-se reciprocamente.
Assim, imitamos sem ter a plena e absoluta liberdade de escolha, muitas vezes imitamos inconscientemente, outras porque achamos necessário, imperioso... enfim, há os mais variados motivos que jamais esgotam as suas infinitas razões. E, sobre isso, ele vai escrever que

O cidadão dos novos tempos gaba-se de fazer uma livre escolha entre as proposições que lhe são feitas: mas, na realidade, a que ele aceitou, a que ele segue, é a que responde melhor às suas necessidades, aos seus desejos pré-existentes e resultante dos seus usos, dos seus costumes, de todo o seu passado de obediência. 3 

           
            Se há EU, trata-se de um EU rachado por onde entram e saem os formigamentos da vida.  É como se Tarde concebesse as subjetividades como vasos que são CONSTANTEMENTE moldados pelas relações, pelos usos, costumes, modos, conversas... Por múltiplas relações em constante movimento.
            Tentamos mostrar o quanto uma novidade pode entrar em disputa com outra, quando escrevemos sobre as relações entre as palavras baratão e barataria, e como uma pode substituir a outra e engendrar um novo hábito, o qual será abalado por outra invenção que também tenderá a se transformar em hábito... enfim, não há costume, hábito, que reine para sempre no social. Este está em constante movimento, corresponde a algo vivo. Lembrando que uma invenção também pode fortalecer uma outra circulante na vida social, não penas substituí-la.  Não há invenções sem relações ou absolutamente autônomas.  O sociólogo, para Tarde, deve se lambuzar de e na vida, e não ficar em seu gabinete apenas conjecturando.
            Nossa intenção aqui foi apenas facilitar alguns pontos da sociologia infinitesimal ou microssociologia desenvolvida por Gabriel Tarde. Observamos o quanto esta nova maneira de se investigar o social confere toda uma importância à vida, às conversas, às relações imperceptíveis que ocorrem no mais profundo interior do corpo social e que gestam as futuras transformações que movimentam constantemente o social. Também há toda uma potência subversiva no ato de criação, na medida em que ele bifurca uma série de repetições necessárias.    
                          

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1.      Melville, H. Contos de Hermam Melville. São Paulo, Cultrix Ed, 1985, p, 38-39 (todos os itálicos são de Tiago Themudo) in: THEMUDO, Tiago Seixas. Gabriel Tarde: sociologia e subjetividade. -  Rio de Janeiro: Relume Dumará; Fortaleza, CE: Secretaria de Cultura e Desporto, 2002.p. 105-106.
2.      TARDE, Gabriel. As leis da imitação. Trad. Carlos Fernandes Maia com a colaboração de Maria Manuela Maia. Rés-Editora, Lda. P. 10.
3.      TARDE, Gabriel. Op. Cit. p. 281  

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Leibniz e a fábrica de percepções




 Danilo José Viana da Silva

“Uma vez despertada do atordoamento, [a substância simples] apercebe-se das suas percepções. É necessário havê-lo tido imediatamente antes, embora sem percebê-las na ocasião; pois uma percepção não pode naturalmente provir senão de uma outra percepção, assim como um movimento não pode provir senão de um movimento.” 1

          Leibniz chamou de apercepções as percepções conscientes. É quando se consegue tomar consciência de algo. Mas, uma apercepção não pode surgir subitamente da esfera do finito, assim como as mônadas (substâncias simples) não podem ficar aprisionadas no estado de atordoamento.
          Justamente pelo fato de uma apercepção (percepção consciente) não surgir misteriosamente do finito, devemos antes pensar sobre a sua produção, a sua fabricação.
          Em Leibniz, uma percepção consciente é resultante das relações entre micropercepções ou percepções inconscientes. Uma percepção consciente (apercepção) jamais pode ocorrer sem as ações de milhares micropercepções que a fabricam.
          Assim, uma percepção consciente de algo pode ser substituída, desorganizada pelas ações de várias percepções inconscientes e infinitamente pequenas que produzem a percepção consciente seguinte. Por exemplo, a percepção que tenho de um desenho grafitado em um muro na cidade do Recife pode suceder a percepção de uma criança que dorme na calçada de uma loja. Neste caso, foi preciso que mil micropercepções ou pequenas percepções inconscientes da criança dormindo na calçada me afetasse até que a macropercepção ou percepção consciente fosse atingida. (apercepção)
          Em Leibniz, compreende-se que uma macropercepção (apercepção) jamais pode surgir prontamente do finito; antes, ela corresponde bem mais a uma produção, a uma resultante da ação de uma infinidade de micropercepções que me atingem, que formigam os estados conscientes e que fabricam o estado consciente seguinte. Um árduo trabalho.
          Uma percepção consciente é resultante das relações diferenciais, muitas das quais não podemos nos aperceber, mas são indispensáveis para a produção de uma nova percepção consciente, de um novo notável. Como lembra Deleuze
“A “boa forma” macroscópica depende sempre de processos microscópicos. Toda consciência é liminar. Sem dúvida, em cada caso será preciso dizer por que o limiar é este ou aquele. Mas, tomando-se os limiares como outros tantos minima de consciência, as pequenas percepções são cada vez menores que o mínimo possível: infinitamente pequenas nesse sentido. São selecionadas em cada ordem aquelas que entram em relações diferenciais e que produzem, assim, a quantidade que surge no limiar de consciência considerado (o verde, por exemplo). As pequenas percepções são, portanto, não partes da percepção consciente, mas requisitos ou elementos genéticos, “diferenciais da consciência”. 2   
            A seleção das relações diferenciais entre as micropercepções, entre as percepções infinitamente pequenas são de suma importância, pois, como lembra o próprio Leibniz, “quando há uma grande quantidade de pequenas percepções em que nada há de distinto, fica-se atordoado, do mesmo modo quando damos, continuamente, muitas voltas em um mesmo sentido, (...)” 3 E é justamente a produção de uma percepção consciente, um limiar de consciência da cor verde, por exemplo, que atesta a possibilidade de saída do atordoamento, no qual de nada se apercebe.
            Sem esse limiar de consciência, ficaríamos andando em círculos, nem mesmo se poderia falar em seleção. Mas, como assim?
“Seja a cor verde: certamente, o amarelo e o azul podem ser percebidos, mas, se sua percepção dissipa-se por ter-se tornado pequena, eles entram numa relação diferencial (d azul/ d amarelo) que determina o verde.” 4

            O azul e o amarelo não são partes do verde, mas seus elementos genéticos que não são apercebidos no verde. Mas o azul, assim como o amarelo, tem como elementos genéticos outras relações entre cores diferentes, as quais têm, cada uma, outras relações entre cores diferentes como elementos genéticos, os quais, por sua vez... 
Enfim, o verde, assim como as outras cores, jamais surge subitamente da esfera do finito, este é explicado pelo infinito, por uma infinidade de relações das quais não nos apercebemos, mas são indispensáveis para a produção de uma percepção que podemos ter do verde, e não ficarmos aprisionados no atordoamento.
Não há como se pensar, em Leibniz, percepções conscientes independentes das relações diferenciais, relações que não param de diferir, entre as percepções infinitamente pequenas; são estas relações que fabricam uma nova percepção consciente. Eis um possível desdobramento da obra de Leibniz.                
                           
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  1. LEIBNIZ, G. W.  A monadologia e outros textos. Organização e Tradução: Fernando Luiz Barreto Gallas e Souza. – São Paulo: Hedra: 2009. P. 29. § 23ª
  2. DELEUZE, Gilles. A dobra: Leibniz e o barroco. Trad. Luiz B. L. Orlandi. – Campinas, SP: Papirus. 1991. P. 150
  3. LEIBNIZ, G. W. Op. cit. P. 28-29. § 21ª
  4. DELEUZE, Gilles. Ibid

terça-feira, 23 de agosto de 2011

C de Cultura: Saber-reserva, o Intelectual e a cultura da fala (abecedário de Gilles Deleuze)

LIBRARY HEAD (Paul Rumsey)


“Claire Parnet: Você diz não ser culto. Diz que só lê, só vê filmes ou só olha as coisas para um saber preciso: aquele de que necessita para um trabalho definido, preciso, que está fazendo, mas, ao mesmo tempo, você vai todos os sábados a uma exposição, a um filme do grande campo cultural, tem-se a impressão de que há uma espécie de esforço para a cultura, que você sistematiza e que tem uma prática cultural, ou seja, que você sai, faz um esforço, tende a se cultivar e, entretanto, diz que não é culto. Como explica tal paradoxo? Você não é culto?

Gilles Deleuze: Não, quando lhe digo que não me vejo, realmente, como um intelectual, não me vejo como alguém culto por uma razão simples: é que quando vejo alguém culto, fico assustado, não fico tão admirado, admiro certas coisas, outras, não, mas fico assustado. A gente nota alguém culto. É um saber sobretudo assustador. Vemos isso em muitos intelectuais, eles sabem tudo, bem, não sei, sabem tudo, estão a par de tudo, sabem a história da Itália, da Renascença, sabem geografia do Pólo Norte, sabem... podemos fazer uma lista, eles sabem tudo, podem falar de tudo. É abominável. Quando digo que não sou culto, nem intelectual, quero dizer algo bem fácil, é que não tenho saber de reserva. Pelo menos não tenho esse problema. Com minha morte, não se precisará procurar o que tenho para publicar, nada, pois não tenho reserva alguma. Não tenho nada, provisão alguma, nenhum saber de provisão, e tudo o que aprendo, aprendo para certa tarefa, e, feita a tarefa, esqueço. De modo que, se dez anos depois, sou forçado, isso me alegra, se sou forçado a me colocar em algo vizinho ou no mesmo tema, tenho de recomeçar do zero. Exceto em alguns casos raros, pois Spinoza está em meu coração, não o esqueço, é meu coração, não minha cabeça, senão... Por que não admiro essa cultura assustadora? Pessoas que falam...

Claire Parnet: É erudição ou opinião sobre tudo?

Gilles Deleuze: Não é erudição, eles sabem falar, primeiro viajaram, viajaram na História, na Geografia, sabem falar de tudo. Ouvi na TV, é assustador, ouvi nomes, então, como tenho muita admiração, posso dizer, gente como Umberto Eco, é prodigioso, o que quer que lhe digam, pronto, é como se apertassem em um botão, e ele sabe, além disso... Não posso dizer que invejo isso. Fico assustado, mas não invejo. O que é a cultura? Ela consiste em falar muito, não posso me impedir de... sobretudo agora que não dou mais aula, estou aposentado, falar, acho cada vez mais, falar é um pouco sujo. É um pouco sujo, a escrita é limpa. Escrever é limpo e falar é sujo. É sujo porque é fazer charme. Nunca suportei colóquios, estive em alguns quando era jovem, mas nunca suportei colóquios. Não viajo. Por que não? Porque... os intelectuais... eu viajaria se... enfim, não. Aliás, não viajaria, minha saúde me proíbe, mas as viagens dos intelectuais são uma palhaçada. Eles não viajam, se deslocam para falar, partem de um lugar onde falam e vão para outro para falar. E, mesmo no almoço, eles vão falar com os intelectuais do lugar. Não vão parar de falar. Não suporto falar, falar, falar, não suporto. Como me parece que a cultura está muito ligada à fala. Nesse sentido, odeio a cultura, não consigo suportá-la.”*
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