Link para ler a entrevista: http://www.scielo.br/pdf/ts/v19n1/a08v19n1.pdf
sexta-feira, 24 de maio de 2013
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
O fundamento arbitrário da lei
Foto de Pascal
A análise da aprendizagem e da aquisição de disposições conduz
ao princípio propriamente histórico da
ordem política. Pascal tira uma conclusão tipicamente maquiavélica a partir da
descoberta de que o arbítrio e a usurpação estão na origem da lei, de que é impossível
fundar o direito na razão e no direito, de que a Constituição, sendo decerto o
que mais se assemelha, na ordem política, a um primeiro fundamento cartesiano,
não passa de uma ficção fundante destinada a dissimular o ato de violência fora
da lei que está na raiz da instauração da lei: na impossibilidade de facultar
ao povo o acesso à verdade libertadora sobre a ordem social (“veritatem qua liberetur”), pois isso
apenas serviria para ameaçar ou arruinar essa ordem, é preciso “trapaceá-lo”,
dissimular-lhe a “verdade da usurpação”, ou seja, a violência inaugural na qual
se enraíza a lei, fazendo com que seja “vista como autêntica, eterna”.(BOURDIEU,
Pierre. Meditações Pascalianas. Trad.
Sergio Miceli. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil , 2007. P. 203-204)
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Pierre Bourdieu: disposição escolástica e inserção no mundo do trabalho.
Por Danilo José Viana da silva
“Compreende o
processo? O rastelo começa a escrever; quando o primeiro esboço de inscrição
nas costas está pronto, a camada de algodão rola, fazendo o corpo virar de lado
lentamente, a fim de dar mais espaço para o rastelo. Nesse ínterim as partes
feridas pela escrita entram em contato com o algodão, o qual, por ser um
produto de tipo especial, estanca instantaneamente o sangramento e prepara o
corpo para novo aprofundamento de escrita.”1
O habitus - enquanto um sistema de disposições para agir e para
perceber e apreciar o mundo social - é um produto de toda uma trajetória de
vida, de todo um processo de inscrição de determinados pressupostos nos corpos.
Ele (o habitus) é produto da
interiorização não consciente de determinada estrutura social.
Neste caso, a disposição escolástica
é produto de um longo processo histórico de inscrição e de esquecimento, de
negação de sua própria gênese histórica e das condições sociais de
possibilidades desse esquecimento. A disposição escolástica está ligada ao grau
de “liberdade” em relação as urgências, as necessidades econômicas e as demais
constrições relacionadas a vida ordinária.
Ainda que possa
ser vivido como algo livre e eletivo, a independência perante quaisquer
determinações vai sendo adquirida e exercida por conta de uma distância efetiva
em relação à necessidade econômica e social (estando, por conseguinte,
estreitamente vinculada à ocupação de posições privilegiadas na hierarquia
sexual e social). 2
Bom, então uma das características
mais importantes da disposição escolástica é justamente essa espécie de
retirada do mundo, de neutralização das urgências, e a ignorância ou recalque
dos pressupostos relacionados com essa disposição. E o grau dessa neutralização
e da sensação de liberdade por ela propiciada vai depender da posição ocupada
em determinado campo, bem como do sistema de distribuição não igualitária de capital cultural, simbólico, econômico...
correspondente a hierarquia entre as posições no interior dos campos e a
reprodução das relações de força que estão na base da sociedade.
Para os já familiarizados com a obra
de Bourdieu, a disposição escolástica é típica dos campos mais eruditos e
escolásticos, tais como o campo filosófico, o científico, o teológico, o
jurídico, o artístico... Neste caso, a autonomia de tais campos (os quais são
produtos históricos e do processo de neutralização das urgências, das pressões
exercidas pelas necessidades econômicas e sociais) encontra um de seus
princípios de explicação no escolástico recalque das pressões externas.
A ilusão da absoluta autonomia dos campos vem encontrar uma
de suas explicações na disposição escolástica: o esquecimento da gênese histórica
dos campos e de como ele é produto de lutas históricas, de como essa história
encontra-se objetivada nas estruturas, nas hierarquias e nas posições, por
exemplo, e a relação dialética entre essa história objetivada e a história
incorporada por um agente que ocupa ou pretende ocupar uma posição no campo.
Mas, o motivo pelo qual escrevemos
este texto superficial é justamente a disposição escolástica exigida pela
lógica de determinados campos burocráticos. A posição de recepcionista (deixando de lado, por hora, toda a importante
questão da dominação masculina e da divisão sexual do trabalho) pode ser
tomada, talvez, como um bom exemplo para entendermos o quanto essa disposição
está inscrita e é exigida tácita e/ou expressamente por determinadas instituições
e/ou empresas.
A inserção no mundo do trabalho pode
ter a aparência apenas de urgência, de uma constrição relacionada a vida
ordinária, mas até mesmo a inserção nesse mundo pode ser vista ( a depender,
por exemplo, do nível de autonomia do mercado no qual determinado agente
pretende ou ocupa uma posição, bem como desta) como uma inserção em um universo
escolástico.
A disposição
escolástica, adquirida sobretudo na experiência escolar pode perpetuar-se mesmo
quando as condições de seu exercício desapareceram quase por completo (com a
inserção no mundo do trabalho). 3
Sabe-se que os campos onde as
condições mais favoráveis às tomadas de posição escolásticas correspondem aos
campos mais eruditos. Entretanto, o afastamento, a negação das urgências, das
tristezas, dos problemas cotidianos é uma característica das exigências
impostas pelos mercados de trabalho considerados como não-eruditos. Não é por
acaso que citamos o exemplo da recepcionista, pois a lógica do mercado onde ela
ocupa uma posição exige que ela esteja “feliz”, “de bem com a vida”, “bem
humorada” para receber todos aqueles que ela recebe.
Ou seja, independentemente das
dificuldades diárias fora do ambiente de trabalho, das brigas familiares e de
diversos problemas cotidianos, ela deve demonstrar “boa aparência”. E a
submissão ou não à essa exigência vem encontrar um de seus princípios de
explicação na relação entre essa exigência, a qual é mais histórica do que
imaginamos, e a história de vida do agente relacionada a um determinado habitus de classe, o qual corresponde a
uma “forma incorporada da condição de classe e dos condicionamentos que ela
impõe;” 4 Bourdieu
preocupou-se em investigar as condições sociais de possibilidade da aceitação,
da submissão dos dominados aos esquemas de percepção e apreciação dominantes do
mundo social. Ele levou em conta como os dominados, sem saber, contribuem para
a sua própria dominação, bem como a dificuldade de se lutar contra essa
dominação, pois ela se dá em um nível abaixo do nível da consciência.
Os trabalhadores
vivem sob esse tipo de pressão invisível e, assim, adaptam-se muito mais à sua
situação do que podemos supor. Modificar isso é muito difícil, especialmente
hoje em dia. Com o mecanismo da violência simbólica, a dominação tende a assumir
a forma de um meio de opressão mais eficaz e, nesse sentido, mais brutal. 5
E essa brutalidade e eficácia se dão
justamente pelo fato do poder simbólico corresponder a um poder invisível cuja
condição de exercício se dá em um plano abaixo da consciência: simplesmente, os
que o exercem não sabem que o exercem, e os que exercem também são dele
vítimas: “o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode
ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos
ou mesmo que o exercem.” 6
E o processo e nível de inscrição
nos corpos (o que, de fato, vai depender de um habitus de classe, das condições sociais de possibilidades dessa
inscrição) da lógica do mercado é uma das características da aceitação tácita
ou expressa da relação de ajustamento ou não entre as exigências do campo e o habitus de classe de determinado agente.
A relação entre as
disposições e as posições nem sempre assume a forma do ajustamento quase
milagroso, e fadado por isso a passar
despercebido, que se observa quando os habitus são o produto de estruturas
estáveis, as mesmas nas quais eles se atualizam: nesse caso, sendo os agentes
levados a viver num mundo que não é radicalmente distinto daquele que modelou
seu habitus primário, a sintonia logo se estabelece entre a posição e as
disposições daquele que a ocupa, entre herança e o herdeiro, entre o cargo e
seu detentor. 7
A adequação entre os agentes e as posições, bem como os
esquemas de percepção e apreciação adquiridos durante um longo processo de
inculcação e inscrição escolar, é um dos
princípios de explicação da ilusio e do
efeito de concertação sem maestro ou de conluio
não voluntário que faz, por exemplo, uma instituição funcionar: é justamente a
concordância
entre o que a
história fez deles e o que ela lhes pede para fazer, concordância essa que pode
exprimir-se no sentimento de estar bem “no seu lugar”, de fazer o que se tem
que fazer, e de o fazer com gosto – no sentido objetivo e subjetivo – ou na
convicção resignada de não poder fazer outra coisa, o que também é uma maneira,
menos feliz certamente, de se sentir destinado para o que se faz. 8
Mas, a concordância nunca é total e
absoluta, até porque as relações entre as posições no interior dos campos, bem
como as relações entre os campos, não são imutáveis. As modificações, as crises
no interior dos campos frequentemente geram desacordos entre as posições e os habitus, principalmente quando estes (os
habitus) foram adquiridos,
incorporados, em um período em que a posição era, por exemplo, digna de
admiração, de prestígio... Esse desacordo é justamente um dos efeitos do
desajustamento entre as expectativas e as condições de suas realizações. “Em
conseqüência, pode ocorrer que, segundo o paradigma de Dom Quixote, as
disposições estejam em desacordo com o campo e com as “expectativas coletivas.”
9
O caso da posição de recepcionista (posição que está
relacionada com a própria lógica da divisão sexual do trabalho) corresponde a
um bem exemplo de como a negação, o recalque das urgências, dos problemas
cotidianos é visto como condição para o bom desempenho do trabalho. É a
aceitação e a incorporação de uma disposição escolástica as condições para ela
desempenhar o seu trabalho “da forma que deve ser feito” e “com gosto.” Mesmo
que isso implique “uma submissão corporal, uma submissão inconsciente, que pode
apontar para um bocado de tensão internalizada, um bocado de sofrimento
corporal.” 10
E, como Bourdieu lembrou várias
vezes, afirmar uma “tomada de consciência” como a condição para se livrar da
dominação simbólica é projetar a consciência de um intelectual em um operário,
principalmente naquele que não teve as mínimas condições de acesso ao capital
cultural para tal (diferentemente de como acontece com aqueles que tiveram
acesso a cultura dominante antes mesmo de ingressar na escola) e a inclinação
necessária para tal. Lutar contra a
dominação simbólica é algo muito mais difícil do que imaginamos, sobretudo pelo
fato da grande possibilidade de, na ilusão de estarmos combatendo-a, acabarmos
fortalecendo-a.
Foto de Pierre Bourdieu.
__________________
1.
KAFKA, Franz. Na Colônia Penal. Trad. Modesto Carone.
– São Paulo: Companhia das Letras, 1998. P. 43-44
2. BOURDIEU, Pierre. Meditações
Pascalianas. Trad. Sergio Miceli. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil , 2007.
P. 25-26
3.
BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalianas. P. 25
4. BOURDIEU, Pierre. A
Distinção: crítica social do julgamento. Trad. Daniela Kern; Guilherme J. F. Teixeira. 2ª ed. Rev. – Porto
Alegre, RS: Zouk, 2011. P. 97
5. BOURDIEU, Pierre e
EAGLETON, Terry. A doxa e a vida
cotidiana: uma entrevista.
In.: Um mapa da ideologia. Org.
Slavoj Zizek. Trad. Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Contraponto. 1996. P. 270
6. BOURDIEU, Pierre. Sobre
o poder simbólico. In.: O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz –
2 ed. RJ, Bertrand Brasil, 1998. P. 7-8
7.
BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalianas. P. 192
8. BOURDIEU, Pierre. História
reificada e incorporada. In.: O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz –
2 ed. RJ, Bertrand Brasil, 1998. P. 87
9.
BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalianas. P. 196
10.
BOURDIEU, Pierre e EAGLETON, Terry. Op. cit. p. 277
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Gaston Bachelard: algumas divagações sobre uma epistemologia não-fixista.
Foto: Gaston Bachelard e sua filha, Suzanne Bachelard.
“Com a ciência einsteiniana começa uma sistemática revolução das noções de
base.”
(Gaston Bachelard)
Por Danilo José Viana da Silva
Em Bachelard a epistemologia não
corresponde a um questionamento baseado em uma razão absoluta, imutável e muito
segura de si mesma: na medida em que ele afirma que “a razão deve obedecer à
ciência”1 ele exige que uma epistemologia e uma filosofia da ciência
dignas desses nomes estejam a par das revoluções científicas, das produções que
atacam profundamente as noções de base da ciência vigente, atestando, assim, a
potência de um conhecimento (o conhecimento científico) jamais imutável e nunca absolutamente seguro
de suas conclusões.
Ou seja, trata-se de uma
epistemologia atenta às revoluções científicas que modificam, retificam, as
noções consideradas eternas e imutáveis pelo espírito pré-científico e bastante
seguro de si. Neste caso, a epistemologia bachelardiana não corresponde a uma
eterna receita para se pensar tudo, pois, como ele mesmo lembra, diferentemente
do empirismo vulgar e isolado, “o racionalismo conhece uma actividade
dialéctica que impõe uma extensão constante dos métodos.” 2 Assim, o racionalismo aplicado - atento aos
racionalismos regionais ligados as diversas disciplinas científicas - (
denotando a capacidade de diferenciação do conhecimento científico: “a hipótese
atômica em química e a hipótese atômica em microfísica não têm a mesma estrutura racional” 3) é
sempre um racionalismo aberto, um racionalismo a se fazer. E tal abertura é
altamente relacionada com o aspecto dialético da superação constitutiva do
conhecimento científico. Este tem como um de seus mais importantes elementos
constitutivos a sua própria superação.
Nesta esteira, o racionalismo que
encontramos na epistemologia bachelardiana corresponde a um racionalismo aberto
e setorial; trata-se de um racionalismo que formula mais questões do que
respostas prontas e acabadas, pois ele não está tão seguro de si mesmo. Eis um
dos aspectos importantes que diferencia o racionalismo aplicado do empirismo
isolado e vulgar, o qual “tem sempre mais respostas que perguntas. Tem resposta
para tudo.” 4
Bachelard sempre criticou a
inclinação da ingênua segurança na utilização de uma única filosofia para se
tratar do conhecimento científico, seja esta única filosofia o racionalismo
kantiano ( para citarmos um único exemplo), o empirismo, o realismo, a
fenomenologia... 5 Como ele
deixa claro: “uma só filosofia é, pois, insuficiente para dar conta de um
conhecimento preciso.” 6
Portanto, para dar conta desse conhecimento, Bachelard lembra que várias
filosofias (as quais são postas muitas vezes em violentas oposições com
capacidade de engendrar as mais diversas guerras acadêmico-ortodoxas) devem
ligar-se por um laço nada comum:
Se pudéssemos
então traduzir filosoficamente o duplo movimento que atualmente anima o
pensamento científico, aperceber-nos-íamos de que a alternância do a priori e do a posteriori é obrigatória,
que o empirismo e o racionalismo estão ligados, no pensamento científico, por
um estranho laço, tão forte como o que une o prazer à dor. Com efeito, um deles
triunfa dando razão ao outro: o empirismo precisa de ser compreendido: o
racionalismo precisa de ser aplicado. Um empirismo sem leis claras, sem leis
coordenadas, sem leis dedutivas, não pode ser pensado nem ensinado; um
racionalismo sem provas palpáveis, sem aplicação à realidade imediata não pode
convencer plenamente. O valor de uma lei empírica prova-se fazendo dela a base
de um raciocínio. Legitima-se um raciocínio fazendo dele a base de uma
experiência.7
Em outras palavras, na epistemologia
bachelardiana seria um erro se falar em ciências puramente dedutivas e ciências
apenas e tão somente indutivas. Bachelard mostra o quanto essa separação
corresponde a um obstáculo: para ele, a dicotomia entre juízos científicos
hipotéticos e juízos científicos categóricos corresponde a um obstáculo para se
conhecer as ciências. Neste caso, o que há, para Bachelard, são ciências
hipotético-dedutivas. Aqui, razão e experiência jamais são vistas como inimigas
uma da outra.
O racionalismo aplicado corresponde
a um racionalismo sempre a se fazer, nunca plenamente pronto e acabado. Quando
se pergunta a Bachelard se ele pode ser visto como um racionalista, ele
responde: “procuramos vir a sê-lo.” 8 A epistemologia bachelardiana é não-acabada,
pois está sempre antenada nas revoluções científicas e nas reformulações
realizadas nas bases do conhecimento científico por elas (as revoluções)
produzidas; ela está antenada com a “ciência em evolução” 9 Neste
caso, como ele lembra, “ a doutrina tradicional de uma razão absoluta e
imutável é apenas uma filosofia. É uma filosofia caduca.” 10
É contra o fixismo das filosofias
muito seguras de suas verdades que a epistemologia de Bachelard é construída. O
não-fixismo de tal epistemologia é uma de suas mais importantes
características, aliás, ele está altamente relacionado com o primado teórico do
erro, com a vigilância epistemológica, com a noção de razão polêmica, com o
racionalismo aplicado...
E a importância desse não-fixismo (o
fixismo tende a transformar a epistemologia em receita, em dogma sagrado) é
levado em conta inclusive por Bourdieu, Passeron e Chamboredon quando eles
integram a epistemologia bachelardiana na sociologia do conhecimento por eles
construída:
À tentação sempre
renascente de transformar os preceitos do método em receitas de conzinha
científica ou em engenhocas de laboratório, só podemos opor o treino constante
na vigilância epistemológica que, subordinando a utilização das técnicas e
conceitos a uma interrogação sobre as condições e limites de sua validade,
proíbe as facilidades de uma aplicação automática de procedimentos já
experimentados e ensina que toda operação, por mais rotineira ou rotinizada que
seja, deve ser repensada, tanto em si mesmo quanto em função do caso
particular. 11
A epistemologia bachelardiana é
não-fixista, não-dogmática: exige que o método dê provas de sua utilidade
racional, questiona-o. Ou seja, um “sucesso” jamais absoluto no emprego de
determinado método em determinada experiência não quer dizer que ele (o método)
seja absoluto: “A experiência não mais constitui o ponto de partida, nem mesmo
é simples guia, ela é um alvo.” 12
Trata-se de uma epistemologia que
jamais pode ser tomada como dogmática digna de reverência sagrada. As próprias
revoluções científicas atestam o não-fixismo dessa epistemologia: revoluções
que exigem dos epistemólogos novas epistemologias. Aliás, como ele mesmo
lembra, “o conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão.” 13
Assim, o filósofo não está lidando com um conhecimento estacionado, estanque,
mas com um constante e contínuo processo de retificação.
________________
1.
BACHELARD,
Gaston. A filosofia do não. Trad. Joaquim José Moura Ramos. – São Paulo:
Abril Cultural, 1978. P. 87
2.
BACHELARD, Gaston.
O materialismo racional. Trad. João
Gama. – Lisboa: Edições 70. P. 260
3.
BACHELARD, Gaston.
Epistemologia. Trad. Nathanael C.
Caixeiro, 2ª ed. ZAHAR EDITORES: Rio de Janeiro. 1983. P. 105
4.
BACHELARD, Gaston.
Epistemologia. P. 48
5.
As insuficiências da fenomenologia para dar conta do
conhecimento científico contemporâneo são expressas por Bachelard quando, por
exemplo, ele trata da noção de corpúsculo na física contemporânea: BACHELARD, Gaston. Epistemologia. Trad. Nathanael C.
Caixeiro, 2ª ed. ZAHAR EDITORES: Rio de Janeiro. 1983. P. 51-66
6.
BACHELARD,
Gaston. A filosofia do não. P. 29
7.
BACHELARD,
Gaston. A filosofia do não. P. 5
8. BACHELARD, Gaston. Essai sur la connaissance approchée.
Librairie philosophique J. Vrin: Paris, 1927. P. 10
9.
BACHELARD,
Gaston. A filosofia do não. P. 87
10. BACHELARD, Gaston. A filosofia do não. Ibid
11. BOURDIEU, Pierre;
CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude. Ofício de Sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Trad. Guilherme João
de Freitas Teixeira. 6ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. P. 14
12. BACHELARD, Gaston. Epistemologia. P. 66
13. BACHELARD, Gaston. Epistemologia. P. 15
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
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