quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Epistemologia das ciências do homem e epistemologia das ciências da natureza: sobre a falsa representação da epistemologia das ciências da natureza e algumas de suas piores consequências.










“A maior parte dos erros a que está exposta tanto a atividade sociológica quanto a reflexão sobre tal atividade encontra sua raiz na representação falsa da epistemologia das ciências da natureza e da relação que ela mantém com a epistemologia das ciências do homem. Assim, epistemologias tão opostas em suas afirmações patentes quanto o dualismo de Dilthey – que só consegue apresentar a especificidade do método das ciências do homem, opondo-o a uma imagem das ciências da natureza suscitada pela mera preocupação de estabelecer distinções – e o positivismo que se esforça por incitar uma imagem da ciência natural fabricada pela necessidade dessa imitação, têm em comum o fato de ignorar a filosofia exata das ciências exatas. Semelhante equívoco levou não só a forjar distinções forçadas entre os dois métodos para agradar às nostalgias ou aos desejos piedosos do humanismo, mas também a aplaudir ingenuamente as redescobertas que se ignoram como tais, ou ainda participar da supervalorização positivista que, de forma escolar, copia uma imagem redutora da experiência como cópia do real.” (BOURDIEU, Pierre; CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude. Ofício de Sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. 6ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. P. 16)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Gaston Bachelard: o espírito científico contra as seduções da experiência de gala... e outras divagações.








Por Danilo José Viana da Silva


“Um cavalheiro que antigamente cantasse e tivesse belo porte só com isso poderia adquirir reputação nos círculos sociais, mas é hoje obrigado a saber pelo menos um pouco de seu Réaumur, seu Newton, seu Descartes.” 1 


            Segundo Bachelard, um dos entraves consideráveis ao progresso do conhecimento científico é justamente o comprometimento da “ciência”, ou melhor, dos livros científicos com a vida cotidiana, com as conversas em salões de festa...
            Em outras palavras, é característica do espírito pré-científico essa preocupação em atender a demanda dos problemas cotidianos, as piadas dos figurões, aos gostos da alta classe e a incontrolável libido sciendi bastante alastrada e disseminada. “No século XVIII, a ciência interessava a todo homem instruído.”2 Nos livros “científicos”  do século XVIII não é difícil de se encontrar uma linguagem agradável e feita num tom bastante dialogal, tal como Bachelard lembra:

Peguem um livro científico do século XVIII vejam como está inserido na vida cotidiana. O autor dialoga com o leitor como um conferencista. Adota os interesses e preocupações naturais. Por exemplo, quer alguém saber a causa do trovão? Começa-se por falar com o leitor sobre o medo do trovão,(...) 3

            O livro científico não deveria ser enfadonho, mas direcionado ao público mundano como um todo, não era raro encontrar livros científicos divertidos e com a pretensão de facilitar, de simplificar e de mostrar que o conhecimento científico é coisa fácil e agradável:

Priestley escrevia ainda um livro traduzido em 1771: “ As experiências elétricas são as mais claras e as mais agradáveis de todas as que  Física oferece.” Assim, essas doutrinas primitivas referentes a fenômenos tão complexos, apresentam-se como doutrinas fáceis, condição indispensável para que sejam agradáveis, para que interessem um público mundano. 4

            Toda essa facilidade e agradabilidade estão muito bem fundamentadas num empirismo vulgar suficientemente potente para engendrar uma preguiça intelectual que chega a se expressar numa postura e num espírito que nada constrói, mas apenas aguarda a “natureza”, o “acaso”, criar, ou melhor, trazer as suas próprias leis. Neste caso, bastaria ao cientista observar e descrever o que vê.

Trata-se de um empirismo não apenas evidente, mas “empirismo colorido.” Não é preciso compreendê-lo, basta vê-lo. Para os fenômenos elétricos, o livro do mundo é livro de figuras. Deve-se folheá-lo sem tentar preparar sua surpresa. Nesse domínio ele parece tão seguro que não se poderia jamais ter previsto o que se vê! 5

            Simplesmente, nada é construído, tudo já seria dado pela natureza, caberia ao cientista observar bem, olhar bem e descrever o que vê. Eis como empirismo vulgar e vício da ocularidade se relacionam tão bem. Por tal vício (o vício da ocularidade) compreende-se o preconceito segundo o qual o que conhecemos é uma extensão da visão, uma extensão do que chegamos a ver. Simplesmente, nesse estágio (o da espera do que vamos ver e descrever bem) muito pouco ou quase nada cabe à razão.
            Mas é justamente contra esse preconceito tão presente no espírito pré-científico que a epistemologia bachelardiana luta: “conhece-se mais facilmente o açúcar fabricando açucares do que analisando um açúcar particular.” 6 Ou seja, o objeto científico jamais se encontra dado e já pronto para ser analisado e para, por exemplo, produzir-se uma catalogação do que foi visto, ao revés, tal objeto deve ser construído, realizado. Como ele mesmo lembra:

A nosso ver, para a epistemologia é preciso aceitar o postulado seguinte: o objeto não poderia ser designado como um objetivo imediato; em outras palavras, uma ida ao objeto não é inicialmente objetivo. É preciso pois aceitar uma verdadeira ruptura entre o conhecimento sensível e o conhecimento científico.7      

O trabalho de construção do objeto científico ( “devemos antes de tudo tomar consciência da necessidade construtiva e nos comprometermos a rejeitar tudo o que não pareça necessário (...) 8” )  requer vários retoques, retificações, prudência... que diferem muito do objeto esperado sustentado pelo empirismo vulgar e seu sensualismo, em seu apego aos sentidos. Sobre a inconsistência desse sensualismo que fundamenta o empirismo vulgar e até mesmo o positivismo do século XIX e XX, Canguilhem lembra o seguinte:

Se se admite que as percepções sensíveis são, ao mesmo tempo, um dado primitivo e a única realidade imediata, é falso falar de ilusões dos sentidos. Além disso, se não se pode superar a impressão pessoal é impossível tirar daí um conhecimento objetivo; não há qualquer razão para estabelecer diferenças, escolher entre as impressões pessoais: todas têm o mesmo direito. 9   

            Como exemplo de positivista que lançou mão da epistemologia sensualista do empirismo para fundamentar diferenças podemos citar Comte, em seu Curso de Filosofia Positiva, quando sustenta que a luz é eternamente diferente do som, pelo fato de as considerações fisiológicas se bastarem: simplesmente a visão se distingue da audição, bem como o tato ou a pressão.
            Essa epistemologia sensualista é altamente subjetivista, na medida em que o dado primeiro é a única realidade imediata, então, é só esperar, ver e descrever como o oficial de registro que encontramos no filme O enigma de Kaspar Hauser dirigido por Werner Herzog. De acordo com o empirismo vulgar, devemos estar “todos no espetáculo. Não nos ocupemos do físico que é apenas um marcador de cena.” 10   
            Contra a epistemologia sensualista e o empirismo vulgar, Bachelard afirma o necessário trabalho de construção do objeto como um  constante esforço de dessubjetivação. É por isso que ele afirma que uma simples ida ao objeto já dado não é objetiva. Contra essa ilusão do fato e do objeto dado, do objeto já pronto, Bachelard afirma a necessidade do trabalho de construção controlada, metódica e racional do objeto, trabalho onde tanto racionalismo aplicado quanto materialismo técnico são trabalhados, onde, por exemplo,  racionalismo e realismo (“De fato, essa contradança de duas filosofias contrarias, em ação no pensamento científico, implica filosofias mais numerosas, e apresentaremos diálogos sem dúvida menos cerrados, mas que ampliam a psicologia do espírito científico” 11) se relacionam constantemente.
            E a necessidade de construção do objeto científico contra as ilusões dos objetos pré-construídos (os objetos já dados, por exemplo) é um ponto de suma importância para compreendermos a fundamentação epistemológica e teórica da sociologia de Pierre Bourdieu:

O que conta, na realidade, é a construção do objeto, e a eficácia de um método de pensar nunca se manifesta tão bem como na sua capacidade de construir objetos socialmente insignificantes em objetos científicos. 12

            Ou então:

(...) é preciso construir o objeto; é preciso pôr em causa os objetos pré-construídos (...) 13     

            A construção metódica e controlada do objeto científico é questão indispensável para se compreender a sua sociologia, bem como o quanto tal sociologia é influenciada pela epistemologia bachelardiana. 14  A construção do objeto científico é um ponto importante para se compreender a ruptura, por tal trabalho propiciada, com o senso comum; na medida em que, como vimos no caso de Bourdieu, ela possibilita se construir um objeto científico que para o senso comum não passa de uma banalidade (de algo natural e inquestionável) ou de algo invisível e, por isso, inexistente. Trata-se também de uma potente ferramenta, em sociologia, contra a hierarquia dos objetos de estudo.
            E a construção do objeto científico em sociologia também é algo muito trabalhoso, requer vários retoques, retificações... pode-se tomar como exemplo o difícil trabalho de construção do objeto científico realizado por Bourdieu em Homo Academicus, onde o próprio cientista iria investigar um campo (o campo universitário) onde ele próprio ocupa uma posição. Várias questões e problemas epistemológicos no trabalho de construção do objeto são levantados, inclusive o necessário controle e vigilância epistemológica na relação de proximidade e distância (do agente que o ocupa uma posição no campo que ele mesmo pretende tomar como objeto, neste caso tanto a posição por ele ocupada quanto o campo jamais devem se ignorados, não apenas o campo e suas relações com outros, mas a sua própria posição – a posição que o próprio pesquisador ocupa - deve ser objetivada) que permeia tal trabalho:

Ao tomar como objeto um mundo social no qual se está preso, somos obrigados a encontrar, numa forma que se pode dizer dramatizada, um certo número de problemas epistemológicos fundamentais, todos ligados à questão da diferença entre o conhecimento prático e o conhecimento erudito e principalmente à dificuldade particular da ruptura com a experiência autóctone  e com a restituição do conhecimento obtido à custa dessa ruptura. Conhece-se o obstáculo ao conhecimento científico que tanto o excesso de proximidade quando o excesso de distância representam e a dificuldade de instaurar esta relação de proximidade rompida e restaurada que, à custa de um longo trabalho sobre o objeto mas também sobre o sujeito da pesquisa, permite integrar tudo o que só se pode conhecer se se está lá e tudo o que não se pode ou não se quer conhecer porque não se está lá.  15            

                     
________________
1.      Anônima, Histoire générale et particulière de l’élétricité. 3 parts, Paris, 1752; 2ª . parte, p. 2 e 3. Apud. BACHELARD, Gaston.  Epistemologia. Trad. Nathanael C. Caixeiro, 2ª ed. ZAHAR EDITORES: Rio de Janeiro. 1983. P. 40
2.      BACHELARD, Gaston.  Epistemologia. Trad. Nathanael C. Caixeiro, 2ª ed. ZAHAR EDITORES: Rio de Janeiro. 1983. P. 39
3.      BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. In.:   BOURDIEU, Pierre; CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude. Ofício de Sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. 6ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. P. 276
4.      BACHELARD, Gaston.  Epistemologia. Trad. Nathanael C. Caixeiro, 2ª ed. ZAHAR EDITORES: Rio de Janeiro. 1983. P. 37
5.      BACHELARD, Gaston.  Epistemologia. Ibid
6.      BACHELARD, Gaston.  A filosofia do não: o novo espírito científico. Trad. Joaquim José Moura Ramos. – São Paulo: Abril Cultural, 1978. P. 33
7.      BACHELARD, Gaston.  Epistemologia. Trad. Nathanael C. Caixeiro, 2ª ed. ZAHAR EDITORES: Rio de Janeiro. 1983. P. 115
8.      BACHELARD, Gaston.  Epistemologia. Trad. Nathanael C. Caixeiro, 2ª ed. ZAHAR EDITORES: Rio de Janeiro. 1983. P. 35
9.      CANGUILHEM, Georges. Leçons sur la methode.  In.:   BOURDIEU, Pierre; CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude. Ofício de Sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. 6ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. P. 269.
10.  BACHELARD, Gaston.  Epistemologia. Trad. Nathanael C. Caixeiro, 2ª ed. ZAHAR EDITORES: Rio de Janeiro. 1983. P. 38
11.  BACHELARD, Gaston.  Epistemologia. Trad. Nathanael C. Caixeiro, 2ª ed. ZAHAR EDITORES: Rio de Janeiro. 1983. P. 109
12.  BOURDIEU, Pierre. INTRODUÇÃO A UMA SOCIOLOGIA REFLEXIVA. In,: O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz – 2 ed. RJ, Bertrand Brasil, 1998. P.20
13.  BOURDIEU, Pierre. INTRODUÇÃO A UMA SOCIOLOGIA REFLEXIVA. Ibid
14.  Pode-se encontrar um ótimo artigo escrito por Frédéric Vandenberghe onde são expostas a importância da epistemologia bachelardiana para a sociologia de Pierre Bourdieu e como ela é trabalhada por ele em: http://sociofilo.iesp.uerj.br/wp-content/uploads/2011/03/Orealerelacional-vandenberghe.pdf
15.  BOURDIEU, Pierre. Homo Academicus. Trad. Ione Ribeiro Valle e Nilton Valle. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011. P. 21
  


 Desenho da capa de uma das edições de Homo Academicus de Pierre Bourdieu

 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

"Repete-se, para não acabar nunca!"



“A música minimalista do ( não sei se vocês conhecem) Steve Reich, do Philip Glass, que fazem aquelas músicas de repetição . Repete-se, para não acabar nunca! Porque é a repetição das composições que aumenta a sua potência.” (Claudio Ulpiano, aula completa: http://www.youtube.com/watch?v=cO1VVONqL4U )



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Gaston Bachelard: Algumas divagações sobre a Razão polêmica


Por Danilo José Viana da Silva


“Para que uma vigilância de si tenha toda a garantia, é necessário que, de algum modo ela mesmo esteja sob vigilância” (BACHELARD. Gaston. O Racionalismo Aplicado)  

Tratamos no texto anterior do Primado Teórico do Erro da epistemologia bachelardiana, bem como da relação desse primado com a noção de Razão Polêmica. Mas, como a nossa pretensão foi tratar mais sobre o aludido primado, assim como de tentar denotar o quanto ele é relacional e importante na epistemologia bachelardiana, deixamos de lado alguns pontos inerentes a Razão Polêmica.  
Nosso objetivo, por hora, é tratar, mesmo que de maneira superficial, de um ponto inerente a Razão Polêmica: trata-se de um ponto que é de crucial importância para diferenciar a polêmica científica da polêmica vulgar. E tal ponto é justamente a vigilância e o questionamento epistemológico sobre si mesmo: ou seja, falar de Razão Polêmica na epistemologia bachelardiana não é tratar apenas e tão somente do necessário questionamento realizado por e na cidade científica, ou seja, por toda a sociedade de cientistas, mas também se trata de uma vigilância, de um questionamento constante exercido sobre si mesmo, sobre o próprio pensamento, não apenas sobre os dos outros.
A necessidade do questionamento exercido pela cidade científica, como Bachelard lembra no trecho seguinte, corresponde a uma forte ferramenta contra a ilusão do individualismo do saber, onde o auto-questionamento de um indivíduo atomizado bastaria:

Se, por outro lado, se tomar o conhecimento científico no seu aspecto moderno levando à perfeição toda a sua actualidade, não pode deixar de valorizar-se o seu carácter social bem definido. Conjuntamente, os sábios unem-se numa célula da cidade científica, não apenas para compreender, mas ainda para se diversificarem, para activarem todas as dialécticas que vão dos problemas precisos às soluções originais. A própria diversificação, como deve fazer a prova socialmente do seu valor, não é totalmente individualista. Esta socialização intensa, claramente coerente, segura das suas bases, ardentes nas suas  diferenças, é ainda um facto, um facto de uma singular actualidade. Não respeitá-lo seria cair numa utopia gnosiológica, a utopia do individualismo do saber. 1          


            A cidade científica (a qual corresponde ao caráter social do questionamento científico, na medida em que afirma esforços para retificar, diferenciar o conhecimento)  não pode ser vista como uma bolha, ao revés, ela é altamente relacional, relaciona-se com a cultura de seu tempo e é por ela também produzida. Assim, como ele mesmo lembra, “Ser um químico é colocar-se numa situação cultural, ocupando um lugar, incluindo-se numa categoria, numa cidade científica nitidamente determinada pela modernidade da investigação. Todo o individualismo seria um anacronismo.” 2  
            Ou seja, pensar em um agente que ocupa a posição de cientista na cidade científica é pensar em alguém que é produzido por determinada cultura, e pensar em cidade científica não é pensar em uma clausura fechada e absolutamente autônoma, mas em uma comunidade que também sofre os efeitos de pressões externas (pressões econômicas, políticas, etc). A produção do cientista como a de um agente que é constantemente moldado pela cultura e pelas descobertas da época, por exemplo, corresponde a um importante instrumento contra a imagem de um indivíduo atomizado e irrelacional no interior da cidade científica, a qual, como já dissemos3, não corresponde a uma bolha ou a uma clausura absolutamente autônoma frente as pressões de seu tempo. E também não é cair na ilusão do interacionismo livre, pois, afinal, há posições, lugares que são ocupados na cidade científica por agentes, e tais posições tendem a contribuir para impulsionar determinado cientista a agir de maneira X ao invés da maneira Y.
            E justamente com o questionamento realizado na cidade científica, deve atuar a vigilância que o cientista deve exercer sobre si mesmo, sobre suas práticas, sobre suas produções, sobre os instrumentos que utiliza... Bachelard estabelece três graus de vigilância epistemológica em O Racionalismo Aplicado. Neste caso, falaremos desses três graus de maneira bastante superficial (pois isso demandaria outro texto) para adentrarmos no tema referente a necessidade do auto-questionamento que o cientista deve realizar.  
            O primeiro grau denota a atitude do espírito influenciado pelo empirismo científico, (um fato é um fato e nada mais) onde o cientista embebeda-se com a expectativa do inesperado ou do esperado sem método. É a expectativa do fato definido e bem designado, aqui, “o fato é um fato e pronto!” Já a vigilância de segundo grau  pressupõe a construção e a explicitação de um método, bem como a vigilância em sua própria aplicação. Todavia, é só com a vigilância de terceiro grau que o questionamento propriamente epistemológico aparece: trata-se, como Bachelard lembra, “de uma vigilância de vigilância de vigilância – dito por outras palavras (vigilância)3 .” 4  Aqui há a ruptura com a ilusão pré-científica do método absoluto e utilizado “como o sistema CGS, que servem para medir tudo.”5  Trata-se (a vigilância)3 de uma das mais importantes ferramentas contra os falsos absolutos que ainda podem existir na vigilância de segundo grau, ou seja, pensar em vigilância de terceiro grau é pensar em um constante e necessário questionamento e superação dos métodos e teorias vistos como absolutos e inquestionáveis; é preciso que o método prove a sua finalidade racional.
            E é justamente a vigilância de terceiro grau que jamais deve ser deixada de lado nem pelo próprio cientista, nem pela e na cidade científica na medida em que realizam o questionamento epistemológico: é necessário que o cientista mantenha a sua própria técnica, as suas condições de utilização, sob vigilância, é preciso que ele os mantenha no plano da vigilância de seus pensamentos, é necessário que ele questione o método que utiliza, é necessário um rigoroso auto-questionamento, afinal, é isso que também diferencia a crítica científica da vulgar.
            A Razão Polêmica e a vigilância de terceiro grau correspondem a ferramentas indispensáveis para o questionamento e para a psicanalização  epistemológica do conhecimento científico, assim como também a indispensáveis instrumentos contra as ilusões e o ego do espírito pré-científico e sua inconsciência triunfante.                   
                                                   
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1.      BACHELARD, Gaston. O materialismo racional. Trad. João Gama. – Lisboa: Edições 70. P. 10
2.      BACHELARD, Gaston. Op. Cit. P. 11
4.      BACHELARD. Gaston. O Racionalismo Aplicado
5.      BACHELARD, Gaston.  A filosofia do não: o novo espírito científico. Trad. Joaquim José Moura Ramos. – São Paulo: Abril Cultural, 1978. P. 17